terça-feira, 24 de julho de 2012

O sofisma chamado agências de notação

                        
                                                                                           Hugo Lameiras

 Opinião
Nada melhor do que as famigeradas agências de notação para se perceber Lord Byron: «Afinal, o que é a mentira? Nada mais do que a verdade mascarada.»


O que são, para que servem?
Das inúmeras agências de notação financeira que existem as mais importantes são as três agências norte-americanas: Standard and Poor’s (S&P), Moody’ s Investor Services e Fitch Ratings. Juntas controlam 95% do mercado. Como? Mediante as suas avaliações de empresas ou estados.

As agências de rating são empresas de notação de risco de crédito cuja principal função é medir a capacidade de um estado ou de uma empresa em pagar as suas dívidas. Essa medição (avaliação ou notação) vai do famoso AAA, que é a total capacidade para cumprir os compromissos financeiros, até C ou D (consoante a agência) que classifica a impossibilidade do cumprimento da dívida, isto é, a bancarrota.

Assim, periodicamente as agências atualizam a sua classificação, que pode resultar numa subida (upgrade) ou numa descida (downgrade) do rating de um estado ou de uma empresa.



Por que razão são estas avaliações fundamentais?
É a partir destes ratings que os investidores tomam as suas decisões, uma vez que a nota de risco resultante dessa classificação expressa o grau de risco que essas empresas ou países (nestes casos chamamos risco soberano) apresentam perante o pagamento das suas dívidas (valor total e juros) no prazo fixado. Assim, se um país ou empresa alcançar uma boa nota, o risco para os investidores é reduzido, mas quanto pior for a classificação maiores serão as taxas de juro, já que o risco de não haver pagamento é superior.

Isto parece ser um sistema simples com regras muito evidentes. Acontece que há uma tremenda falta de seriedade destas instituições fomentada pelo enorme conflito de interesses, dado que o avaliador é (quase sempre) pago pelo avaliado.

Que notação dar às agências de notação?
A história demonstrou a fraqueza de um sistema que de perfeito nada tem. O facto é que nos últimos anos os erros de avaliação geraram crises muito profundas à escala global. Um dos exemplos é a Enron, uma empresa americana do setor energético (electricidade e gás natural) e das comunicações, financeiramente muito saudável que colapsou há cerca de uma década originando um escândalo financeiro ciclópico. Onde estavam estas agências com as suas previsões?

O episódio mais paradigmático da falácia destas agências é o colossal erro na avaliação do banco norte-americano Lehman Brothers, que abriu falência a 15 de Setembro de 2008 com prejuízos de 485 mil milhões de euros. De acordo com os dados destas mesmas agências, os títulos de dívida do Lehman Brothers chegaram a negociar com o rating A+ até 180 dias antes da sua falência. Como se justificam as boas notas de investimento que resultaram afinal na crise do subprime?

Em relação ao caso português, há igualmente histórias mal contadas. Lembram-se do rating da EDP, por exemplo, que passou para lixo não há muito tempo? Até aqui nada de estranho, o pior foi saber que a EDP obteve lucros de 1,125 milhões de euros em 2011, mais 4% que no ano anterior, o que representa o melhor resultado de sempre da elétrica. Como se explica um erro tão grosseiro?

Ao nível da avaliação do risco soberano a coisa não é muito mais animadora e há igualmente erros crassos e incompreensíveis. Um desses exemplos é a Argentina, que no espaço de um ano, entre 30 de Outubro de 2000 e 6 de Novembro de 2001, passou de uma notação que lhe conferia o rating BBB-, equivalente ao rating que Portugal tem hoje, para um estado de falência.

Como se explica a bancarrota da Islândia há quatro anos (resgatada em Outubro de 2008), já que estas agências de notação atribuíam seis meses antes o rating A, ou seja, o terceiro valor mais elevado da escala que se traduz num baixíssimo risco creditício?


Há inúmeros erros que o tempo se encarregará de reforçar, mas estas agências defendem-se de uma forma muito simples para se desculpabilizarem: apenas emitem a sua opinião!

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